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Sacerdote ou generalista? Apenas jornalista!

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Contradição. Essa é a palavra que melhor expressa o jornalismo, para Jorge Claudio Ribeiro. No terceiro capítulo da obra “Sempre Alerta – condições e contradições do trabalho jornalístico”, o autor expõe o jogo do poder entre jornalistas e a direção dos meios de comunicação, no qual, para “obter a adesão do trabalhador numa área intelectual, tradicionalmente rebelde”, aliciamento e coerção se fazem necessários.

Profissão marcada pela tensão, pela troca de favores, pela necessidade de estar sempre atento, sempre alerta, o jornalista é visto por alguns como um generalista, um especialista em generalidades; por outros, como um sacerdote devido sua influência vasta e direta sobre a opinião pública. Mais do que essas definições, Ribeiro mostra o jornalista como um profissional dividido entre seus ideais e os interesses do órgão que o emprega. Um indivíduo atormentado pelo constante risco de demissão, e as consequências impostas por tão alta rotatividade.

Mesmo sendo uma área de atuação de muita competitividade, onde poucos se destacam, observa-se certa solidariedade de grupo – a chamada sociabilidade operacional. O editor, grande dependente “da adesão/submissão de sua equipe é um dos maiores beneficiários de um trabalho conjunto e anônimo”, cabendo a ele repartir parte desse capital, a fim de criar “um sólido laço, em que sua confiança será paga com a fidelidade de seus subalternos”. Esse cargo de chefia, antes muito cobiçado e destinado aos mais experientes, é cada vez mais entregue a novatos – mais aptos a “fazer a ponte” entre o jornal e os repórteres sem grande resistência.

O jornalismo, devido seu dinamismo, acompanha as mudanças que ocorrem no mundo, de forma que “na imprensa, o taylorismo assumiu a forma de cobertura científica dos fatos, de imposição do deadline, de planos de metas, produção computadorizada, controles de erros, avaliações mensais dos jornalistas, planilhas do volume de produção”. Jorge Claudio Ribeiro aponta que “o anonimato do trabalhador frente à homogeneização do produto” é resultado desse sistema.

“Superficialmente qualificado de alucinante, o ritmo de trabalho (e de vida) do jornalista é pelo contrário, descontínuo e concentrado, oscilando entre fases de marasmo e de aceleração”. Na fase de aceleração, destaque para o momento do fechamento de edição, considerado o auge da tensão no dia do comunicador. O motivo, segundo o Manual de redação da Folha de S. Paulo, é que “o compromisso de quem fecha é duplo: com a qualidade da edição e com o horário estabelecido no cronograma industrial. Cada atraso no fechamento resulta em perdas de circulação”.

Nas edições diárias de um jornal o acúmulo de prestígio profissional é lento e residual, sendo necessário muito esforço para criar sua marca, tornar seu nome conhecido. Para a empresa porém, não é interessante ter alguém independente, de forma que a autoconfiança do jornalista costuma ser desestimulada. Tal filosofia é criticada. Alberto Dines argumenta que “uma equipe de jornalistas acuada pode, no máximo, produzir um boletim de informações, mas nunca um jornal”.

Márcia Glogowski, jornalista, acredita numa relação entre a religião e o jornalista: “religião é uma palavra que funciona para o jornalismo: daí o pavor das pessoas de serem demitidas – é como ser excluído, excomungado”. A demissão, seja ela semelhante ou não à excomunhão, tem o objetivo de passar a mensagem que ninguém é insubstituível. Como diria Claudio Abramo, “donos de jornal não gostam de gente forte na redação; ficou forte, eles eliminam”.

Além das demissões, Jorge Claudio Ribeiro afirma que as contratações também são carregadas de valor simbólico. Na falta de um método melhor, o concurso público é realizado e os programas de treinamento interno tornam-se indispensáveis.

A empresa de notícias faz uso do duplo discurso – “uma forma ambivalente de ver e dizer o mundo e a si mesma”. Essa é mais uma das contradições da profissão, constantemente dividida entre o lucro e a utilidade pública, o anonimato e a personalidade dos jornalistas, o aliciamento e a coerção. “O jornalista vive uma situação complexa e contraditória porque, ao mesmo tempo que maneja esses dois níveis de discurso, é afetado por eles”.

O texto aborda ainda a síndrome da perna-de-pau, quando o profissional da comunicação, por ter obtido sucesso, atrela sua vida à do veículo para qual trabalha. Abramo descreve a situação da seguinte maneira: “o jornalista tem a impressão de que tem poder. Como as relações em jornais não são muito formais, o jornalista acaba achando que também é meio dono do jornal”.

Ribeiro mostra nesse capítulo o quão dura é a vida do repórter, como as empresas jornalísticas guiam-se cada vez mais pela política, como é difícil sair do anonimato e, em atingindo esse primeiro patamar, é preciso lutar contra a demissão. Trata-se obviamente de um mercado concorrido e até certo ponto, corrompido: é necessário muito mais que talento para atingir o sucesso.

(resenha escrita em 24/03/2009, para a disciplina de Teoria do Jornalismo)

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