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Anos 80: “década perdida”? Para o jornalismo, não!

 por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

 

O livro “O Último Jornalista – Imagens de cinema”, de autoria de Stella Senra, retrata as transformações impostas pela tecnologia ao jornalismo, e a importância da imagem que se faz deste profissional, em muito produzida pelo cinema. A sétima arte, conhecidamente tem o poder de incutir imagens nos espectadores, de maneira a influenciar o modo com que o jornalismo, por exemplo, é visto.

Na era digital em que vivemos essa imagem se faz cada vez mais presente. Lutando contra o anonimato – marca do jornalismo atual – cada profissional busca visibilidade, e para tanto constrói uma imagem, de maneira a transformar-se num “personagem”.  Tal situação é consequência da “modernização” da empresa jornalística, da revolução técnico-administrativa e da incorporação da informática.

Essa “modernização”, só pode ser compreendida se analisado todo o contexto. A imprensa brasileira, na época do pós-guerra, passou por uma transição: do modelo europeu, com sua inspiração político-literária, para o americano – focado nos “fatos” e na objetividade. O “contexto político e empresarial muito particular” se encarregou em moldar “um profissional com características muito próprias e uma atuação muito particular”.

Até a década de 1950 era comum que jornalistas fossem proprietários de empresas jornalísticas e responsáveis por todo o processo da elaboração do jornal. Talvez por isso, “não chegaram a alcançar saúde empresarial suficiente para se tornarem independentes do poder estatal”. Foi nesse período que se consagrou a conhecida figura romântica do jornalista: além do lado boêmio e da falta de regras, o jornalista passa a ser visto como alguém comprometido com a modernização do país, alguém com um importante papel político e social.

 Nas duas décadas seguintes, sob o regime ditatorial, a censura imposta a imprensa contribuiu, de certo modo, para realçar a responsabilidade do jornalista com o poder público. Com o início da abertura política, nos anos 80, “o capitalismo passa a interferir de modo mais incisivo no destino das empresas, repercutindo tanto na condução dos negócios jornalísticos quanto na atividade de seus profissionais”.

 A ascensão da televisão impulsionou grandes transformações no jornalismo escrito. “O jornalista se tornou substituível”, já que, segundo Stella Senra, a profissão deixou de ser encarada como missão. A notícia deixou de ser trabalho de um único repórter e perdeu o toque literário que a marcava até então: ficou mais curta, mais direta, consequência da “mensagem telegráfica da televisão”.  Além disso, o mercado começou a despontar como personagem importante na área da comunicação: a “relevância da orientação mercadológica veio de certa forma substituir a antiga inclinação partidária ou mesmo o compromisso político oficial do período anterior”. 

Baseando-se no analista Laymert Garcia dos Santos, a autora explica a imprensa brasileira dos anos 80 sob três diferentes ópticas: o jornalismo como serviço público, o jornalismo como técnica e o jornalismo como arte, destacando que cada uma dessas facetas da profissão revela uma imagem diferente do profissional da imprensa, da concepção da informação e do jeito que leitor é visto.

O que Senra lamenta é que “quanto mais profundas a racionalização e informatização, quanto maior a racionalidade técnico-administrativa, menos lugar parece haver para o jornalista liberal, o antigo profissional sujeito da sua produção, em interlocução com a cidadania, louvado pela sua responsabilidade política e social”. Consequência disso é a fragmentação do trabalho e a hierarquização crescente que podam o repórter. Essa mesma ideia é defendida por Anthony Smith: “Não há ‘autor’ na informação jornalística. Só existe o sistema do jornal, que garante certos elementos de individualidade ao repórter, de integridade pessoal no interior de fluxos de atividades geradas por um sistema coletivo mas hierárquico”.

Essa perda de autonomia por eles destacada acentuou o anonimato. Num cenário onde a competição é cada vez mais intensa, poucos obtêm destaque – e quando alcançam, são tratados como “estrelas”. Constata-se aí uma ambiguidade: ”tanto jornalistas se transformaram em estrelas em reação ao anonimato quanto estrelas trouxeram seu ‘brilho’ para as redações, transformando-se em jornalistas”. Stella Senra vê nesse processo de anonimato uma possível causa do aumento significativo de colunistas nos jornais e na propagação dos talk shows.

Durante a chamada “década perdida” a imagem do jornalista foi totalmente reestruturada. Com a proximidade dos anos 90 e o bombardeamento tecnológico, muitos começaram a duvidar do futuro da profissão, afinal, “com o surgimento da Internet e a constituição das redes, o desenvolvimento do hipertexto e da imagem virtual, a informação deixa de ser um produto exclusivo do jornalista”. Michael Crichton, escritor americano, apresenta uma versão mais otimista, que vê na propagação da informação uma maneira de valorizá-la. As pessoas, segundo ele, tendo a “necessidade” da informação, exigiriam uma informação cada vez melhor, o que, por sua vez, melhoraria as instituições midiáticas.

Tantas transformações foram notadas pelo cinema, como observa Glenn Garelick. Stella Senra cita algumas das novas características, como o fato de serem “mais ‘frios’ do que os primeiros herois do cinema, mais instruídos que seus antecessores, melhores pagos, mais urbanos e mais educados”. Essa é a maior prova do dinamismo do jornalismo, profissão que se transforma a cada dia, mas não perde sua essência. Ao contrário do que sugere o título o fim da profissão não está próximo e, na era de velocidade em que o século XXI se insere, virão ainda novas transformações. Talvez as mais drásticas.

(resenha escrita em 14/04/2009, para a disciplina de Teoria do Jornalismo)

Comentários em: "Anos 80: “década perdida”? Para o jornalismo, não!" (2)

  1. Ótimo texto, Anna. O único problema que identifico é que é exatamente a partir da metade da década de 80 que o jornalismo começa a decair nos quesitos bons jornalistas e jornalistas éticos. Uma pena…

    • Obrigada, Gu
      Também tenho essa impressão..
      Mas fico com a dúvida se são os jornalistas que deixaram a ética de lado, ou se simplesmente não existem mais veículos que tenham a ética como prioridade, corrompendo os jornalistas. De um jeito ou de outro, faço minhas as suas palavras: uma pena…

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