ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

Todos os Homens do Presidente

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Watergate. O maior escândalo político da história norte-americana, que acabou por resultar na renúncia do presidente Richard Nixon, em 08 de agosto de 1974, diante de um pedido de impeachment. Esse é o cenário em que se passa o filme Todos os Homens do Presidente, dirigido por Alan J. Pakula e vencedor de quatro Oscar. A trama é baseada no livro homônimo, escrito pelos próprios repórteres do caso, Robert Woodward (interpretado por Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), do jornal The Washington Post.

A história começa com a invasão do quartel-general eleitoral do Partido Democrata, no edifício Watergate. Cinco homens, aparentemente ladrões, são presos em flagrante e levados ao tribunal. Cabe ao novato Bob Woodward cobrir o caso. O walkie talkie apreendido com um dos capturados leva o repórter a suspeitar que houvesse mais gente envolvida. O fato de os réus terem advogados também intriga Woodward. Ao ligar para a Casa Branca e perguntar sobre a ligação de um dos acusados com a CIA, o jornalista se surpreende com a secretária que começa a negar qualquer envolvimento com o caso Watergate, quando esse sequer tinha sido citado. O editor, vendo o potencial de a notícia ultrapassar as páginas policiais, põe Bernstein no caso.

Logo na primeira matéria que Woodward escreve sobre a pauta, Carl Bernstein faz modificações. E logo no primeiro parágrafo, alegando que o lead não estava satisfatório. Robert Darnton, em Jornalismo: toda notícia que couber a gente publica, diz que o jornalista “pode atribuir os cortes e o pequeno destaque dado às suas matérias a uma pressão de circunstâncias, mas uma modificação em seu primeiro parágrafo é uma provocação a seu discernimento jornalístico”. O repórter porém, há apenas nove meses na redação, aceita bem a crítica – o oitavo mandamento para Paul Johnson, “disposição de admitir o próprio erro”.

Seguindo o que Johnson chamava de primeiro mandamento – “desejo dominante de descobrir a verdade”-, Woodward e Bernstein se dedicam com afinco para solucionar o caso. As suspeitas de que o caso na verdade se tratava de uma complicada trama envolvendo espionagem política, que só se resolveria dois anos mais tarde, eram crescentes.

Junto com o concorrente The New York Times (como dizia Darnton, o jornalista “sabe que a concorrência vai examinar minuciosamente suas reportagens”), Woodward recebe uma mensagem: deveria encontrar-se com uma fonte misteriosa, apelidado pelo editor de “Garganta Profunda”. A identidade do subdiretor do FBI só foi revelada em 2005 e, em dezembro de 2008, Mark Felt faleceu. O direito de preservar a identidade de suas fontes é o que diferencia o jornalista do homem comum. “O único segredo da profissão do jornalista se refere ao sigilo da fonte – ele não é obrigado a revelar sua fonte quando julgar que deve preservá-la, o que está assegurado na legislação das democracias contemporâneas”, segundo Eugênio Bucci.

Embora “Garganta Profunda” (Hal Holbrook) só falasse em off, dava importantes dicas a Woodward. Aliás, esse problema, chamado por Marcelo Leite de Offismo, é bastante abordado no filme. Como poderia o jornal publicar uma matéria com acusações tão graves baseado apenas em declarações off the records? Mas como fazer para obter declarações oficiais? Conseguir os depoimentos não era uma tarefa fácil… Ninguém queria falar. Bastava saber que eram os repórteres para as pessoas fecharem suas portas. O motivo? Além da polêmica envolvendo o caso, pode-se pensar no que Bernardo Kucinsky, em Declínio e morte do jornalismo como vocação, chama de perda da “aura” do jornalista.

Mesmo com as dificuldades os repórteres não desanimam e continuam batalhando por uma fonte que pudesse ser citada. Com o auxílio de uma colega de trabalho (já dizia Jorge Claudio Ribeiro, em Sempre Alerta: “os jornalistas desenvolvem entre si uma complexa relação, que inclui forte competitividade somada a uma certa solidariedade de grupo”), que tinha se relacionado com um dos membros do comitê de reeleição, conseguem uma lista com os nomes de todos os membros – possíveis fontes.

Assim, Woodward e Bernstein vão de casa em casa atrás de informações, algo quase impensável nos dias atuais, quando os jornalistas, em sua grande maioria se limitam à pesquisa na internet. Nessa busca, Ben chega à casa da contadora do comitê, Judy Hoback, que a princípio se recusou a falar. Porém, seis horas, litros de café e anotações em papel higiênico depois, o repórter sai de lá com o que desejava: novos dados.

Enquanto isso, Bob tinha mais um de seus encontros com Garganta Profunda, na garagem escura do shopping center, obtinha a dica de “seguir o dinheiro”, pois havia uma “caixa dois” no comitê. Pouco a pouco as denúncias se confirmam, e tanto os jornalistas quanto a pauta vão ganhando destaque, afinal, como afirma Darnton, “quanto mais alto o status da vítima, mais importante a matéria”.

Ainda assim, o diretor geral do jornal, Been Bradlee (interpretado por Jason Robards), é cauteloso. Evita ao máximo cometer o que Ciro Marcondes Filho chama de quarto deslize: “publicar o provisório e o não-confirmado para obter o furo. Transformar o rumor em notícia”. Assim, apesar do árduo trabalho investigativo, os repórteres não conseguem a tão sonhada matéria de primeira página.

Os próprios jornalistas do The Washington Post não acreditam muito na matéria. Primeiro pelo fato de apenas o Post dar destaque a Watergate – no filme, Bradlee cita uma pesquisa cujo resultado era que a grande parte da população norte-americana desconhecia o caso. Segundo, se a notícia era tão quente por que não eram designados profissionais mais experientes?

O caso, após dois anos de investigação, foi resolvido: os arrombadores estavam a serviço do Partido Republicano, tentando colher informações confidenciais da campanha de George McGovern, do partido dos Democratas.

Ainda hoje Watergate é sinônimo do jornalismo bem praticado e o filme nele inspirado é uma verdadeira aula de jornalismo e, mesmo tendo se passado nos anos 70, ainda é atual.

(resenha escrita em 09/06/2009, para a disciplina de Teoria do Jornalismo)

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