ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

A reforma de Obama

Presidente norte-americano tenta implantar a reforma da saúde enquanto enfrenta a oposição de diversos grupos

Por Anna Carolina Cardoso Pinheiro,

com reportagem de Laíssa Barros e Marina Zenun

Uma promessa de campanha que o presidente dos Estados Unidos Barack Obama está encontrando problemas para cumprir por ser uma questão controversa, que causa polarização política. Assim é a reforma na saúde proposta pelos democratas. Com o orçamento de um trilhão de dólares, em 10 anos, o projeto visa oferecer um plano de saúde aos mais de 47 milhões de habitantes norte-americanos sem acesso a tratamentos médicos. Um aumento progressivo, durante a próxima década, nos impostos das famílias com renda anual superior a US$ 250 mil – menos de 3% da população – financiaria metade desse investimento, que totalizaria 2,5 trilhões de dólares. Assim, o governo ofereceria um seguro-saúde com custo inferior aos privados, o que, provavelmente, contribuiria para baixar os preços dos planos pagos.

No berço do capitalismo o que se nota são preços exorbitantes e serviços ineficazes. E o problema não atinge só os quase 50 milhões de não-segurados: a lista das doenças não-abonáveis, isto é, não incluídas na cobertura, é crescente. Como se não bastasse, as campanhas de medicina preventiva são inexistentes. Nesse cenário, a indústria da saúde cresce como nunca. Do outro lado da balança, milhares de americanos morrem por ano por falta de atendimento médico básico, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A crise econômica apenas piora a situação: quem perde seus empregos acaba por perder o seguro de saúde também, já que este é subsidiado pelos empregadores. A cada trinta segundos, um americano vai à falência graças às despesas com tratamentos de saúde.

Opositores contra-atacam

Com a acusação de esta ser uma “medida socialista”, a grande maioria do Partido Republicano – e a parcela mais conservadora do Partido Democrata – é contrária à reforma. Bem como a fatia mais rica da população cujos tributos seriam aumentados com a aprovação do projeto. Os planos de saúde privados também não são a favor, posto que tal iniciativa governamental ameaçaria seus lucros. Durante a pior recessão desde a Grande Depressão, nos anos 30, a maior preocupação de grande parte da população é com os custos dessa reforma. A estes, o ditador cubano Fidel Castro deu um lembrete: os Estados Unidos gastam trilhões com armamento, mas se recusam aprovar um sistema de saúde universal que beneficiaria os mais pobres.

A situação já difícil para Obama piorou no final do mês de agosto, quando morreu o senador Ted Kennedy, grande defensor do projeto. Mais que um aliado, o governo perdeu um voto no Congresso: não será mais possível, com 59 votos, impedir votações e aprovar a reforma, sem que concessões à oposição sejam necessárias. Cada vez mais distante de conseguir o apoio bipartidário, o presidente já pensa em modificar os pilares do projeto original. O maior ponto de divergência é a chamada “opção pública”, referente ao plano de saúde público.

A ideia de implantar um sistema universal de saúde nos Estados Unidos, como é recomendado pela OMS, é antiga. Franklin Roosevelt tentou implantá-lo no sistema de Segurança Nacional. Fracassou. Nos ano 60, Lyndon Johnson criou o Medicare e Medicaid, para aposentados ou deficientes e pessoas de baixa renda, respectivamente. Em 1993, o então presidente Bill Clinton encarregou a mulher, e hoje secretária de Estado, Hillary Clinton, de reformar o sistema de saúde americano. O projeto, apelidado de “Hillarycare” pelos opositores, também fracassou. A dúvida permanece. Por que o país mais rico do mundo ocupa apenas o 37º lugar nas classificações internacionais de sistemas de saúde, sendo que os gatos com a saúde chegam a 16% do PIB?

Potência, não paraíso

Alemanha, Inglaterra, Japão, Canadá, França, Itália, Cuba, Brasil… A lista de países que, com menos dinheiro em caixa, conseguem oferecer atendimento médico a toda a população é enorme. Enquanto isso, nos Estados Unidos a situação é sofrível, como bem mostra “Sicko – SOS Saúde”, documentário de Michael Moore, lançado em 2007. Durante as duas horas de filme a triste realidade de quem não tem acesso gratuito à saúde é escancarada.

Para Denis Maracci Gimenez, professor de Relações Internacionais das Faculdades de Campinas (Facamp), a reforma é mais que necessária. Gimenez afirma que a resistência dos mais abastados é uma “atitude reacionária” e que, provavelmente, levará o presidente americano a reformular o projeto. O professor ressaltou que a indústria farmacêutica, embora seja contrária a essa medida, terá de contribuir para sua execução, pois depende financeiramente do governo.

Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência mundial, o que não significa que seja o melhor lugar para se morar. A crise econômica estourou no ano passado e seus reflexos ainda estão presentes no cotidiano. A saúde está nessa situação crítica. A educação, de acordo com Gimenez, “vai de mal a pior”. O padrão de vida de muitos americanos está sofrendo mutações. As definições sobre o sistema de saúde serão uma indicação bastante eloquente do caminho que o país adotará nos próximos anos.

(matéria escrita em 10/09/2009, para a disciplina de Jornalismo Multimídia II, publicada no Folha da Foca)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: