ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

O Nobel de Obama

Esforços para um mundo sem armas nucleares e conversas com o “Eixo do Mal” de Bush consagraram Obama com o Nobel da Paz 2009. Uma premiação mais baseada em uma aposta do que efetivamente em fatos

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro,
com reportagem de Laíssa Barros e Marina M. Zenun

No último dia 09 de outubro, o presidente norte-americano Barack Obama foi nomeado Prêmio Nobel da Paz. Aos 48 anos, o democrata foi homenageado “por seus esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”, de acordo com o Comitê do Nobel Norueguês.

A honraria, entregue desde 1901, a homens e mulheres de todos os cantos do planeta com realizações proeminentes na física, química, medicina, literatura, economia ou na busca pela paz, foi criada pelo industrial e filantropo sueco Alfred Nobel. Uma medalha, um diploma e um polpudo cheque no valor de 10 milhões de coroas suecas – cerca de US$ 1,4 milhão, ou R$ 2,5 milhões – serão entregues a Obama no dia 10 de dezembro, em Oslo, na Noruega.

O prêmio surpreendeu até o homenageado. Em discurso oficial, Obama disse não achar merecer estar ao lado de pessoas tão admiradas, inclusive por ele, e que “esse prêmio reflete o tipo de mundo que os EUA querem alcançar”. Muitos concordam com ele, uma vez que, mais que ações, são as intenções do presidente que foram premiadas.

O acadêmico conservador Jerome Corsi, um dos principais opositores de Obama dentro dos Estados Unidos, chega a defender que o ex-presidente George W. Bush seria mais merecedor do Nobel, por efetivamente ter libertado as pessoas da tirania de Saddam Hussein e do próprio Taleban. Evo Morales, presidente boliviano, concorda com a idéia de que a premiação foi precipitada. Já Fidel Castro, ex-presidente de Cuba, a considera positiva e escreveu um artigo dizendo que esta deve ser vista como “uma crítica à política genocida que seguiram não poucos presidentes desse país (os EUA), os quais conduziram o mundo à encruzilhada onde hoje se encontra”.

Barack Hussein Obama Jr foi o terceiro chefe de estado americano a vencer o Nobel da Paz. Afro-descendente e de origem muçulmana, assumiu a presidência dos Estados Unidos há apenas 9 meses. Com 53% dos votos, derrotou o senador republicano John McCain nas eleições de novembro de 2008 e sagrou-se o primeiro presidente negro dos EUA, com promessas ousadas como a reforma no sistema de saúde. Nesse início de mandato já se notam algumas mudanças, principalmente na política externa. Restabelecer o diálogo com o Irã e a Coreia do Norte – tidos como do “Eixo do Mal” pelo governo Bush -, defender um mundo sem armas nucleares em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), o pedido de paz no Oriente Médio e a maior abertura para tratar das questões climáticas são reflexos dessa mudança.

Mas muita coisa continua inalterada. As guerras no Iraque e no Afeganistão, são dois bons exemplos. E é justamente a questão sobre o conflito no país controlado pelo Taleban, onde os norte-americanos mantêm tropas desde 2001, que causou controvérsia entre os membros do Comitê. Para Gilberto Hugo Teixeira – coronel reformado, diretor da Faculdade de Administração e Negócios (FAN) do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp) e doutor em planejamento, aplicações e estudos militares, “há guerras que são necessárias. A do Afeganistão é uma delas”. A presença dos Estados Unidos lá visa controlar o poderio da milícia que governou a nação de 1996 a 2001 e, pouco a pouco, vem recuperando o poder. O receio dos Estados Unidos e do mundo é que, sem as tropas ianques, o extremismo taleban se espalhe não apenas pelo Afeganistão, mas controle o Paquistão – país vizinho, que conta com um arsenal nuclear.

Indo ao encontro do que defende Teixeira, em março foram enviados, de acordo com o jornal Washington Post, 21 mil efetivos (soldados de apoio, pessoal sanitário, engenheiros e membros do serviço secreto, que não são considerados habitualmente como tropas de combate). Na mesma semana em que o Nobel foi anunciado, teriam sido ordenados, de acordo com o mesmo jornal, outros 13 mil, o que totalizaria 68 mil norte-americanos no Afeganistão. O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, nega essa informação.

A polêmica em torno do Nobel da Paz é antiga. Henry Kissinger, secretário de Estado americano e conselheiro político de Richard Nixon, mesmo com a Guerra do Vietnã, o bombardeio ao Laos e o apoio a Pinochet, foi premiado. Mahatma Gandhi, famoso pacifista indiano, não. Agora o Comitê escolheu Obama, o que muitos consideram despropositado. Como diz o velho adágio, nem sempre boas intenções culminam em ações benéficas. É esperar para ver.

(matéria escrita em 22/10/2009, para a disciplina de Jornalismo Multimídia II, publicada no Folha da Foca)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: