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Jango, de Silvio Tendler

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Cineasta, autor do filme “Os Anos JK – Uma Trajetória Política” de 1980, Silvio Tendler produziu um filme sobre outro presidente brasileiro, João Goulart. “Jango”, lançado em 1984, conta a história política de João Belchior Marques Goulart, da eleição que o nomeou vice-presidente de Jânio Quadros até sua morte em.

Assistido por mais de meio milhão de espectadores e narrado pelo ator José Wilker, o documentário, o sexto de maior bilheteria no cinema brasileiro, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine) não se limita apenas à pessoa de Jango, como Goulart era conhecido, mas oferece uma visão geral da década de 1960 no Brasil.

Até sua trilha sonora marcou o país. A música “Coração de Estudante”, de Wagner Tiso e Milton Nascimento, acabou por se tornar o hino das “Diretas Já”, movimento que reivindicava eleições diretas para presidente, e aconteceu no mesmo ano que o lançamento do filme.

Numa época em que presidente e vice não vinham obrigatoriamente da mesma chapa, formou-se a dupla Jan-Jan. João Goulart foi assim reeleito vice-presidente (já era vice de Juscelino Kubitscheck) e Jânio Quadros assumiu a presidência. Jânio porém tomava decisões, principalmente no que dizia respeito à política externa, que desagradavam a UDN (União Democrática Nacional) e demais conservadores. A condecoração Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul e a aproximação brasileira de Cuba eram exemplos disso.

Foram sete meses de ataques da oposição, principalmente de Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro na época, até que Jânio renunciasse. O correto seria então que Jango fosse o novo presidente. Acontece que, no período da renúncia, Goulart estava na China e os conservadores trataram de impedir seu retorno ao Brasil. Leonel Brizola, que era governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Goulart, encabeçou uma campanha pela legalidade da posse de Jango, que terminou com um plebiscito para escolher entre o presidencialismo e o parlamentarismo. O presidencialismo venceu.

Quando assume o posto máximo do executivo brasileiro, o conterrâneo de Getúlio Vargas assiste ao crescimento de vários grupos que viriam a influenciar o cenário político brasileiro, como as Ligas Camponesas e a UNE (União Nacional de Estudantes) e a maior participação da Igreja Católica. Para o desagrado da direita conservadora, formada principalmente por burgueses e grandes latifundiários, Jango institui medidas que pretendiam melhorar a vida dos brasileiros. As Reformas de Base propunham as reforma agrária, na saúde, na educação, bancária e tributária. O Estado passava a intervir mais na economia, chegando inclusive a regulamentar a remessa de lucros das empresas estrangeiras. Crescia assim a fama de que Jango era comunista.

No ano de 1964, o comício da Central do Brasil movimenta o país, que pára para ver a população exigindo a reforma agrária. As reformas sociais e o governo de João Goulart desagradavam à direita, que contava com o apoio da classe média alta da Igreja católica conservadora, como ficou claro Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em São Paulo. O golpe estava cada vez mais próximo.

No dia 31 de março de 1964, o General Olímpio Mourão Filho (responsável pelo Plano Cohen, que possibilitou que Vargas implantasse o Estado Novo em 37), contou com o apoio dos governadores de Minas Gerais (Magalhães Pinto), São Paulo (Adhemar de Barros) e Rio de Janeiro (Carlos Lacerda) para que os militares tomassem o poder. Jango é deposto e exilado no Uruguai.

Entre 1966 e 1968, João Goulart participou da Frente Ampla, movimento pela restauração democrática do país, por meios pacíficos. Em 1973, a convite do então presidente Juan Domingo Perón, Jango vai morar em Buenos Aires, onde falece, vítima de um ataque cardíaco, sem ter conseguido regressar ao Brasil. Sua morte teve grande repercussão tanto no Uruguai como no Brasil. Sepultado em São Borja, sua cidade natal, mais de 30 mil pessoas acompanharam seu cortejo. Sua morte até hoje não foi totalmente explicada – há indícios de que o presidente Ernesto Geisel tivesse conhecimento que Jango seria assassinado.

Depoimentos de Leonel Brizola, do economista Celso Furtado, de Raul Riff, Secretário de Imprensa de Jango, combinados com imagens de arquivo engrandecem a obra, que demonstra clara preocupação em passar uma imagem positiva não apenas de João Goulart, mas também de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.

Ao término dos 116 minutos de exibição, conclui-se que muito mais que uma biografia do personagem título, Tendler nos presenteia com uma aula sobre a democracia no Brasil.

(resenha escrita em 18/11/2009, para a disciplina de História do Brasil II)

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