ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

De provedor a estorvo

A história de Gregor Samsa e o por quê dessa distopia kafkiana ser um clássico da literatura mundial

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Gregor Samsa. Um caixeiro viajante que, após “sonhos intranqüilos”, acorda metamorfoseado em um inseto. Assim começa a história de “A metamorfose”, clássico da literatura do século XX. Escrito por Franz Kafka, o livro engana aqueles que, ao lerem a primeira linha, pensa estar diante de uma história de ficção científica, tal qual . Com o avançar das páginas, nota-se a sensibilidade desse escritor tcheco. Gregor em nenhum momento pensa ser um inseto – entende apenas que seu corpo mudou, ganhando novos acessórios. E aceita o fato, torturando-se mais pela situação que deixou a família, incapaz de aceitar sua nova condição, do que por suas limitações atuais. Mais do que de humano para inseto, a metamorfose ocorrida, que dá nome à obra, é de provedor a estorvo. Tal situação revela um traço distópico da obra, isto é, uma utopia invertida, na qual o personagem se vê frente uma situação nunca antes imaginada, e cujas reações não podem ser previstas.

Responsável pelo sustento da família, o caixeiro viajante se preocupa, e se culpa, por não ter como trazer dinheiro para casa. O pai aposentado, a mãe com asma, a irmã ainda muito nova e ele, sem conseguir se comunicar, trancado em seu quarto, escondido. Não conseguindo ser compreendido, Gregor logo deixa de ser informado. Tudo o que o personagem capta é pelas finas paredes que separam seu quarto do restante do lar. É assim que ele toma conhecimento das diversas mudanças às quais a família teve de se submeter: o pai volta a trabalhar, a mãe começa a costurar para fora, a irmã também arranja um emprego e a casa transforma-se numa pensão, acolhendo três senhores como hóspedes.

Sentindo-se culpado por ter colocado seus familiares em tal situação, Gregor definha pouco a pouco, tentando arrumar desculpas que justificassem as ações dos Samsa. Grete, sua irmã, é a única que entra no quarto, somente pelo tempo suficiente de deixar-lhe alguma comida – essa pressa em sair do ambiente é encarada por Gregor como uma forma de lhe dar privacidade, e não como sinal de que a irmã nutre o sentimento de nojo por ele, o que fica claro para o leitor. A relação com a irmã é, aliás, bastante curiosa. Há alguns indícios de que os irmãos tinham um bom relacionamento antes de Gregor transformar-se em um inseto: ele pretendia, mesmo contra a aprovação dos pais, pagar-lhe um conservatório de música para que ela continuasse estudando violino. Além do que, quando a mãe percebe que o filho não fora trabalhar, Grete demonstra preocupação em saber se estava tudo bem com o irmão. A repulsa, porém, logo supera qualquer outro sentimento que já existisse, e é Grete quem aconselha os pais a se livrarem daquele bicho (vulgo Gregor).

A mãe, submissa ao marido, é quem aparece para clamar por piedade. Em ocasiões em que o pai apela para a força física, ela o faz parar. Ainda assim a raiva do pai é tanta que este mal suporta ver o filho, de modo que a vida do protagonista, cada vez mais, se resume a seu quarto. O cômodo, por sua vez, também é metamorfoseado – no final está mais para um depósito, onde lixo e o mobiliário retirado da casa, a pedido dos hóspedes, se amontoam.

A novela surpreende por, em nenhum momento, explicar o porquê dessa transformação. O fim é chocante e mostra como, tanto ou ainda mais que Gregor, a família Samsa passou por uma transformação.

O romance desponta ainda como crítica social: com uma função burocrática e habitado a sua situação, Gregor só se dá conta da realidade que vive quando metamorfoseado, prova de que o sistema acaba por “cegar” o indivíduo. Com fortes evidências de traços biográficos (Kafka não mantinha bom relacionamento com o pai), “A metamorfose” é, mais que o melhor livro do autor, um clássico da literatura mundial, portanto, leitura obrigatória.

(resenha escrita dia 07/12/09, para a disciplina de Leituras de Ficção)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: