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O Homem tal qual ele é

Sob o selo de “Narrativas da distopia”, editora relança três clássicos da literatura mundial

por Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Qual a relação entre Winston Smith, Gregor Samsa e “a mulher do médico”? O membro do Partido Externo de “1984”, o homem-inseto de “A Metamorfose”, e a heroina de “Ensaio Sobre a Cegueira” representam, respectivamente, George Orwell, Franz Kafka e José Saramago na coleção “Narrativas da distopia”, lançada recentemente.

O primeiro volume da coletânea, “1984”, conta a história de Winston e da Oceania pós-guerra, onde o imperava o poder do Grande Irmão, o controle das teletelas, a Novilíngua e seus verbetes, os Ministérios e suas responsabilidades, o domínio sobre a memória. Orwell apresenta uma sociedade que considera o poder do Partido superior a tudo e todos. Um lugar onde não se tem liberdade nem para dizer que “dois mais dois são quatro”. Onde mais do que eliminar os opositores do regime, o grande objetivo é convertê-los, fazer com que adorem o Grande Irmão, com que sejam “homens robôs”.

“A Metamorfose”, por sua vez, dedica-se a narrar uma “fábula às avessas”, na qual o caixeiro viajante Gregor Samsa acorda metamorfoseado num inseto. Ao perder a função de provedor, Gregor logo deixa de fazer parte do convívio familiar. Isolado em seu quarto, local onde passa a ser depositado tudo o que a família não vê utilidade, Gregor vai perdendo seus traços de humanidade. Kafka impressiona por contar algo tão extraordinário de maneira tão natural.

A obra de Saramago, “Ensaio Sobre a Cegueira” apresenta uma epidemia de “cegueira branca” e o caos instalado. Tudo começa quando um homem, parado no semáforo, de repente, passa a ver tudo branco. Logo as pessoas que tiveram contato com ele são atingidas pelo mesmo mal. Na tentativa de conter a transmissão, o governo coloca os cegos num antigo manicômio. Trancados lá, sob o controle apenas dos alto falantes, os personagens (caracterizados apenas por suas profissões, ordem em que ficaram cegos, ou algum traço marcante de sua aparência) vão pouco a pouco deixando de ser humanos, perdendo a racionalidade que nos difere dos animais.  Nesse contexto, apenas uma pessoa parece permanecer humana, a mulher do médico e, talvez, justamente por isso, é quem mais sofre.

O nome da coleção das quais as obras citadas configuram os três primeiros lançamentos é super apropriado, posto que é a distopia que os une. Esse conceito, também conhecido como “utopia negativa”, quando aplicado na filosofia, designa uma situação na qual a sociedade se mostra como verdadeiramente é: cruel, desumana. Frente alguma situação inimaginável, tais quais as dos livros, passamos a nos questionar se Rousseau estava certo ao dizer que o homem é bom, a sociedade que o corrompe; ou se na verdade é o oposto: o homem é ruim e acaba por corromper a sociedade.  Três livros muito bons, cuja leitura leva a uma reflexão proveitosa.

(resenha escrita em 11/12/2009, para a disciplina de Leituras de Ficção)

Comentários em: "O Homem tal qual ele é" (1)

  1. Fiquei com vontade de ler o Saramago (só assisti o filme), ler o 1984, que já me disseram ser muito bom, e reler o Kafka, que é demais.

    Excelente resenha, Anna, parabéns.

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