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a 17 degraus…

Era a exceção na minha classe: a única criança que morava no centro da cidade. Isso trazia certo ar de mistério, afinal só eu não morava em um condomínio, algo que praticamente beirava o absurdo para a maioria dos meus colegas e, ao mesmo tempo, despertava a curiosidade – todos queriam me visitar. As expectativas, no entanto, raramente eram correspondidas. Não que não fosse uma boa casa, muito pelo contrário. Mas seus cento e cinquenta metros quadrados de área construída eram pífios se comparados às mansões que meus colegas viviam.

Mais que o tamanho, o maior choque era com o piso superior: diferentemente da esmagadora maioria dos sobrados, nos quais os quartos e a ala íntima ficam no primeiro andar, esse lugar era ocupado pela sala de estar de minha família. Era nosso mezanino. E, justamente por ser um lugar destinado às visitas, um “lugar que não era para criança brincar”, era o meu canto preferido da casa.

Não tenho primos. Tão pouco tinha vizinhos com a mesma idade que eu. Desde muito nova, convivi com muitos adultos, amigos dos meus pais, que ainda hoje sinto como se fossem parte da minha família. Dessa convivência com pessoas mais velhas herdei um ganho e tanto no meu vocabulário e o desejo incontrolável de crescer, de ser logo adulta. E ali, no mezanino, eu me sentia mais perto de atingir de maioridade! Bastava subir as escadas.

Estava há 17 passos do paraíso, há 17 degraus de uma vida que parecia muito mais interessante que a minha, há 17 degraus de ser adulta. Subia a escada sem usar o corrimão, andando firme, decidida, mentalizando que cada um daqueles degraus era um ano de vida – começava a jornada com oito anos, alcançava meu destino aos 25. Sentia-me forte, imbatível, dona do meu próprio nariz! Enfim, adulta.

A parte chata era a hora da descida… Eu não queria voltar a ter oito anos! Queria ter uma profissão, uma casa, queria ser uma estrela, ter brilho próprio! Talvez, no meu íntimo, desejasse que o 17 fosse mais que o número de degraus, mais que a distância entre o ideal e a realidade – fosse um dos arcanos maiores do Tarô, fosse a carta da… estrela! Carta carregada de boas energias, que profetiza o alcance de um desejo e a confiança no seu sucesso. Coincidência?

Hoje, bem mais perto dos tão almejados 25 anos, o meu desejo é justamente o contrário – é, nem que por apenas um dia, pudesse voltar a ter oito anos. Ironia do destino?

(texto escrito no dia 10/03/2011, para a aula de Jornalismo Literário) 

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