ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

Que a lâmpada nunca apague!
lâmpada símbolo da enfermagem

Observá-la, ainda que de longe e à meia luz, ajudava a esquecer, ao menos um pouco, da minha dor. Era difícil saber o que mais me agradava naquela misteriosa moça – os olhos que transbordavam compaixão? as mãos que carregavam uma delicadeza ímpar? os lábios que, nas poucas vezes que se abriam, transmitiam palavras de incentivo e esperança?

Caminhava com passos curtos e firmes, carregando em uma das mãos uma lamparina para melhor enxergar os pacientes e, na outra, uma pilha de compressas. Não me lembro do dia em que ela chegou, apenas do efeito que provocou. A princípio, pensei que fosse um anjo, tamanha a capacidade de se doar que emanava. Mas era humana demais para ser um corpo celestial: equilibrava, com sucesso, a feminilidade das meretrizes com a bondade das irmãs de caridade – os únicos dois grupos de mulheres que tinham contato conosco, soldados feridos durante a Guerra da Crimeia.

As três trocas de curativo necessárias todos os dias foram me aproximando dela e aumentando minha curiosidade a respeito daquela que se tornaria a mulher mais importante da Era Vitoriana depois da própria Rainha. Conquistando um pouco de sua confiança, pude saber que sua família não apoiara sua decisão de sair de casa para ajudar aos outros, de ser enfermeira, o que consideravam “impróprio para uma dama”. Soube ainda que essa não fora a primeira decepção da mãe com a jovem filha: para desagrado da rica família do Grão-ducado de Toscana, Florença, a mais velha das filhas se rebelara pedindo para estudar “matemática, ao invés de tricô ou dançar quadrilha”.

Essa paixão pelos números, mais especificamente pela estatística, podia ser vista ali mesmo, no nosso improvisado hospital militar na Turquia. Ela organizava tabelas identificando as principais causas de morte e, vendo que a falta de higiene aumentava as chances de óbito, implementou mudanças que reduziram,já no primeiro semestre, em 20% as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos.

Lembro-me com tristeza do dia de sua partida. Após ter contraído febre tifoide, teve de retornar à Inglaterra, onde disseram que seria recebida como heroína. Nossos superiores diziam que, por causa de suas limitações físicas, ela não poderia mais fazer o que tanto gostava, ficar no hospital cuidando das pessoas. Porém, segundo os jornais da época, isso não a afastou de sua missão… Chamada de “dama da lâmpada”, ela foi a primeira mulher a receber a Ordem ao Mérito na Inglaterra e abriu a pioneira escola de enfermagem no país.

A guerra há muito acabou. As lembranças que dela ficaram são as piores possíveis, exceto pelos momentos de alegria que tive em poder conviver com essa incrível mulher. E hoje ela se foi. Aos 90 anos de idade, Florence Nightingale deixou a vida… para entrar na história. A lâmpada que essa precursora da enfermagem moderna acendeu, no entanto, continua acesa. E alguns de seus feitos, como as prescrições médicas por escrito, hão de perdurar por anos a fio. Que o mundo chore sua morte e jamais se esqueça da fundamental contribuição da senhorita Nightingale para a história da enfermagem.

(texto escrito no dia 05/05/2011, para a aula de Jornalismo Literário) 

Comentários em: "Que a lâmpada nunca apague!" (6)

  1. tulio disse:

    Ana,adorei o texto,a gente termina de ler crente de que voce realmente conheceu a pessoa descrita.Achei convincente.
    No mais,gostei da sua expressao literaria.Voce conseguiu utilizar-se de elogios e sentimentos sem tornar o texto excessivamente sentimental ou “meloso” – para mim,muitos escritores literários incorrem neste “defeito” rsrs.Muito legal,parabéns.

  2. cidinha disse:

    a m e i !!!

  3. Juh Campos disse:

    Nossa, Anna!!! Ameeeii!! Aliás, amo todos os seus textos, frases, dissertações… Daqui a pouco vou ver sua coluna nos melhores jornais e revistas do Brasil sil sil….tenho certeza!!!

    Um grande beijo…

    Saudadeeesss

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: