ensαios de umα αprendiz α jornαlistα

Chego à sua casa pontualmente às duas horas da tarde, como tínhamos combinado. Lourdinha já me esperava na porta, com um sorriso estampado no rosto e um abraço caloroso para me receber. Ela pede que eu fique à vontade e me convida para um cappuccino. Tal qual velhas amigas, seguimos em direção à cozinha.

O almoço há pouco fora servido, mas a cozinha está impecável. Disciplina, organização e limpeza são três atributos que chamam atenção em Lourdinha – e que não costumam ser observados em artistas. Com uma desenvoltura impressionante para seus 80 anos, ela apressa-se em ferver a água. Fico, sentada, observando a decoração do ambiente, como se o visse pela primeira vez. A decoração é sóbria: os móveis, em tons pastéis, mas o cômodo é alegre, com alguns objetos coloridos.

Cappuccino pronto, começamos nosso papo. Já no primeiro gole, sinto um gosto diferente, uma cremosidade única e um aroma incomparável. Lembro-me então do que já me contara dona Cida: é a própria Lourdinha quem prepara o pó para o café! Traumatizada por ter comprado um potinho de cappuccino descafeinado, resolveu não correr mais o risco – começou a produzir a mistura, com os melhores ingredientes e adicionando mais canela, sua predileção.

A artista apoia os braços na mesa e, com carinho, fala da neta Mariana, destacando como ela e eu somos parecidas em alguns aspectos.  A conversa flui. Começamos criticando a efemeridade dos relacionamentos e a banalização do sexo, a partir daí falamos sobre família e, quando fizemos uma pausa para um gole de café, o assunto já era os monumentos históricos de Itu.

Ela, nitidamente emocionada, fala da chácara em que morava até quatro anos atrás, enquanto Vinícius, seu companheiro por 56 anos, era vivo. Contém as lágrimas e diz como era feliz e não sabia. Digo que ela está bem acomodada no condomínio em que vive e que seria solitário – e triste – morar no Recanto Vaccari. Um tanto quanto envergonhada, ela abaixa os olhos, mira o piso branco e as pontas de seus sapatos e confessa que não é mais feliz, que chora todas as noites.

Eu não esperava por tal declaração. Tento disfarçar meu choque com essa descoberta. Espero ter conseguido. As palavras por ela pronunciadas, no entanto, continuam martelando em minha cabeça. Como pode aquela mulher que é exemplo de alegria estar tão deprimida? Como uma pessoa que está tão infeliz consegue reproduzir na porcelana, com traços precisos e delicados, imagens tão belas da flora e fauna brasileira e das igrejas ituanas? Desde quando essa personalidade fundamental à história da minha cidade está nesse estado? Como ninguém percebe? Onde estão seus quatro filhos e oito netos nessas horas?

Um dos porteiros me confidencia que ronda sua casa com mais cuidado. Sente um carinho especial e se preocupa com Lourdinha. Para ele, quem pinta tão divinamente, pessoa ruim não há de ser! Mal sabe o coitado como seus passeios por sua rua, como o barulho da moto na janela do ateliê tiram-na de sua concentração… E tampouco saberá. Por mais que possa desejar fazer o contrário vez ou outra, a educação da artista impera e ela apenas interrompe o trabalho, abre a janela, dá um sorriso e oferece uma xícara de café.

Lourdinha ainda está na minha frente, contando mais algumas de suas memórias – mas suas palavras já não são mais minha prioridade. Ela me convida para ir até seu estúdio, seu lugar preferido na casa, onde fica só com suas porcelanas e pincéis, onde se encontra, faz sua arte. De lá saem mais que objetos embrulhados: são peças únicas, que tem apenas sua memória como inspiração. Embaixo, uma dedicatória. Na frente, uma discreta assinatura. Para quem recebe, o mais delicado dos presentes.

Peça pintada por Lourdinha Navarro que foi entregue ao Papa Bento XVI, durante visita do pontífice por São Paulo

Dos 80 anos de vida, 50 foram dedicados à arte da pintura em porcelana. Das milhares de peças por ela produzidas, Lourdinha não guardou nem uma foto sequer. Uma das maiores artistas ituanas (ela nasceu em Cabreúva, mas se considera parte da Terra dos Exageros), quiçá a maior, entre as escolhidas para homenagear, com sua obra, o papa Bento XVI, não tem um portfólio. Nem faz questão. A ela o que importa é o que sentiu enquanto pintava – amor.

O traço está mais fino. A alegria de viver pode não ser mais tão perceptível. Mas a paixão pela porcelana continua intacta. Aliviada, despeço-me e vou embora. Pensando em, tão logo, chegar em casa e admirar, uma vez mais, todas as suas criações que tenho em meu arquivo pessoal, aceno a última vez e dou partida no carro.

(texto escrito em 26/05/2011, para a aula de Jornalismo Literário)

Comentários em: "O traço está mais fino" (4)

  1. Yumi disse:

    Amei seu site! Muito lindo o que você escreveu sobre Lourdinha. Espero que ela reencontre a felicidade logo =] beijinhos amo vc Cindiiii

  2. cidinha disse:

    Anna Carolina, Deus abençõe você – tamanho talento!

    Seu texto, tão profundo e delicado, desenha indelevelmente a Lourdinha que amamos.

    Obrigada por você ser essa pessoa tão especial; sucesso!!!

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