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O primeiro bloco da disciplina de Cultura Brasileira propôs a discussão sobre o jeitinho brasileiro, com base na leitura de Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de autoria de Manuel Antônio de Almeida e o ensaio de Antônio Candido sobre a obra, A Dialética da Malandragem (1998). A trama, ambientada no Rio de Janeiro, conta a história de Leonardo, carinhosamente chamado de Leonardinho, “filho de uma pisadela e de um beliscão” entre Leonardo-Pataca e de Maria Hortaliça.

Anti-herói, Leonardinho é protagonista do que Antônio Candido definiu como o primeiro romance malandro brasileiro. Tal malandragem, reforçada com a Lei de Gerson, por exemplo, de que o brasileiro sempre quer levar vantagem em tudo, quer beneficiar-se sem fazer o menor esforço, há muito é atribuída ao nosso povo – trata-se do jeitinho brasileiro que, apesar do lado pejorativo, é alvo de estudo de muitos estudiosos.

Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Campos, Oliveira Torres e Roberto DaMatta são alguns deles. Os quatro são unânimes em afirmar que a origem do jeitinho está ligada à nossa colonização, que deixou marcas na sociedade ainda hoje observadas.

Seus estudos mostram que ao transferir a corte portuguesa para cá os colonizadores necessitavam de novas leis, ou ao menos da adaptação das normas que já existiam em Portugal. Por se tratarem de locais totalmente distintos, desde os aspectos físicos, geográficos e até humanos, era natural que tais preceitos jurídicos não pudessem ser os mesmos. No entanto, estas normas de origem lusitana foram simplesmente trazidas para o Brasil e executadas tal e qual se dava no país colonizador. Tantas diferenças acabaram por favorecer que as regras fossem burladas, afinal não era possível fazer aqui o que era considerado legítimo na terra de Dom João VI. Assim, o descumprimento das leis estava ligado menos à criminalidade do que à adaptação por parte dos habitantes do ainda mal explorado Novo Mundo.

Sergio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), define o brasileiro como um “homem cordial”. Cordial, ao contrário do que muitas pessoas pensam, vem da palavra latina cor, cordis, que significa coração. Portanto, o homem cordial não é uma pessoa gentil, mas sim aquele que age movido pela emoção no lugar da razão e, assim, não vê distinção entre o privado e o público, que detesta formalidades e acaba por a ética e a civilidade de lado. Essa cordialidade fez do brasileiro, segundo o historiador e jornalista, um povo que desenvolveu uma histórica propensão à informalidade.

Buarque de Holanda afirma ainda que o próprio fato de as instituições brasileiras terem sido concebidas de forma coercitiva e unilateral, não havendo diálogo entre governantes e governados, mas apenas a imposição de uma lei e de uma ordem consideradas artificiais, quando não inconvenientes, buscando beneficiar apenas os interesses das elites políticas e econômicas de então também colaborou para a formação dessa identidade.

Traço atribuído aos brasileiros e, de certa maneira, aos latinos, é a característica de sermos mais afetuosos, mais humanos. Dessa maneira, mesmo sabendo não ser o correto e o previsto em lei, temos a tendência de achar aceitável, quase incentivar pequenas transgressões, como a mãe que fura a fila do atendimento médico para salvar a vida do filho, ou o morador de uma comunidade carente que faz uma “gambiarra” por não ter acesso econômico aos meios legais de distribuição de energia elétrica, ou ainda o motorista que avança o sinal vermelho à noite para não ser assaltado.

São características tão enraizadas em nosso povo que a cientista social Lívia Barbosa afirma que “de drama social do cotidiano [o jeitinho brasileiro] passou a elemento da identidade social. De simples mecanismo adaptativo, reflexo de nossas condições de subdesenvolvimento, o jeitinho se transformou em elemento paradigmático de nossa identidade”.

Tamanha simpatia com anti-heróis, como Leonardinho ou Macunaíma, que Mario de Andrade criaria em 1928, é alimentada pelos muitos personagens da ficção que seguem a mesma máxima de serem simpáticos, ainda que não sejam corretos e, dando aquele jeitinho, consigam, após uma série de obstáculos, atingir seus objetivos.


(resenha escrita em 12/09/2011, para a disciplina de Cultura Brasileira)

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