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No curta-metragem O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, o cineasta gaúcho Jorge Furtado faz uma crítica às instituições da sociedade brasileira pós-ditadura e consegue provocar grande reflexão com a metanarrativa de 10 minutos de exibição. Na trama, ambientada em 1986, Dorival (João Acaibe), é um presidiário, “negro e forte”, há 10 dias sem tomar banho.

curta-metragem brasileiro, de 1986, dirigido por Jorge Furtado e José Pedro Goulart

Em situação de degradação humana, até os direitos mais básicos, como o de acesso à higiene pessoal, são a ele negados. O ambiente de distopia faz com que o personagem-título deixe de lado as convenções sociais e o respeito à lei – livre das correntes impostas pela sociedade, ele fala o que bem entende, desacatando as autoridades para ser ouvido. Não acostumados a serem questionados – muito menos enfrentados -, os “milicos” se veem acuados.  A crítica aos representantes do Exército incluiu o fato de aparecerem priorizando a vida privada às suas funções no Quartel e como eles só têm força se juntos.

A situação nos expõe a algumas das limitações que ainda hoje podem ser observados em nossas corporações, tais como a rígida hierarquia, a burocracia, o conformismo com o “ordens são ordens” e o racismo. A questão da discriminação pela cor está presente em todo o filme: o soldado Catarina o vê como o King Kong e tanto ele quanto o cabo usam expressões como “crioulo” para descrevê-lo. Chama a atenção o fato de o nome de Dorival ser questionado apenas pelo tenente, enquanto os demais se contentam em saber que ele é um prisioneiro grande e negro.

O curta-metragem mostra ainda como a ameaça de um escândalo pode ser o meio mais eficaz de se fazer ouvido, afinal a imagem e a reputação dos envolvidos não podem ser maculadas em uma sociedade que vive das aparências. Dorival, em seu desespero, apela até para o “jeitinho brasileiro”, pedindo que passassem por cima das ordens, que ninguém saberia de nada. O preso só volta a ser visto como humano quando isso parte de um igual a ele, quando o também negro sargento que oferece um cigarro a ele.

(resenha escrita em 16/09/2011, para a disciplina de Jornalismo Cultural II)

Comentários em: "O Dia em que Dorival nos fez Refletir" (1)

  1. marili disse:

    O filme despertou em mim uma reflexão comparativa entre o texto e situações vivenciadas por muitos cidadãos brasileiros. Dorival ainda foi capaz de lutar, mas quantos usuários do sistema de saúde, que não tem sequer força ou esclarecimento para lutar pelos seus direitos, acabam sendo negligenciados e morrem nas filas intermináveis a espera de um profissional para atendemos.

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