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Uma feijoada indigesta para uma língua afiada

Anna Carolina Cardoso Pinheiro

Jornalista e escritor, Joel Silveira escreveu, ao longo de seus 88 anos de vida, cerca de 40 livros. Desses, três foram escolhidos, por Matinas Suzuki Jr, para compor a Coleção Jornalismo Literário, elaborada pela Companhia das Letras.

Jornalista e escritor, o sergipano Joel Silveira morreu aos 88 anos

A língua afiada, quase ferina, do jornalista, apelidado de “víbora” por Assis Chateaubriand, fizeram de Joel Silveira um ícone da modalidade no Brasil. Uma de suas obras de grande notoriedade é A Feijoada que Derrubou o Governo, livro lançado em 2004, que reúne perfis políticos escritos a partir dos conturbados anos 40 até o Golpe Militar de 1964.

A escrita leve e descontraída, que leva o leitor ao ambiente que é narrado, vicia da primeira à última página. O texto é intimista e carregado e ironia. A tática do jornalista, de entrevistar a personalidade na casa deles, no ambiente em que se sentiam melhor e que, consequentemente, dava pistas sobre o comportamento de cada um dos entrevistados.

Lançado em 2004, "A Feijoada que Derrubou o Governo" faz parte da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras

Dividido em 17 episódios mais posfácio, A Feijoada que Derrubou o Governo conta ao público o que o AI-5 impediu de ser publicado à época, no jornal Correio da Manhã, para o qual Joel Silveira escrevia em 1968.

Em entrevista para o portal IG, em 2003, o jornalista diria que a feijoada que dá nome ao título ainda era indigesta, e que as consequências eram sentidas apenas naquele momento, nos anos 2000.

De família abastada, definindo o pai como burguês, ainda novo, aos 13 anos, Joel Silveira, apenas para irritar o progenitor, uniu-se aos operários e começou a escrever um jornal. Era o início de uma longa e promissora carreira na imprensa, que levou-o a grandes veículos e deixou seu nome marcado na história da imprensa brasileira. De correspondente de guerra – que deu origem ao Inverno da Guerra, também na Coleção Jornalismo Literário – às extensas entrevistas, com 20, 30 páginas, que hoje sequer encontram espaço para serem publicadas, Joel era especialista na arte de contar histórias. Mesmo doente, acometido por um câncer de próstata, recusou o tratamento para continuar morando em casa. A catarata o impedia de escrever, mas ainda conseguiu organizar sua produção literária, separando os textos inéditos dos que já tinham sido publicados anteriormente.

O primeiro dos episódios de A Feijoada que Derrubou o Governo – intitulado Antônio Carlos, 1943: “Os Andrada nunca se preocuparam com dinheiro” – fala sobre Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que tivera, entre outros cargos, o de Ministro da Fazenda e o de governador de Minas Gerais. Mesmo avesso a entrevistas e com inacreditável capacidade de esquivar-se de perguntas difíceis, Joel Silveira consegue traçar, com maestria, o perfil do político embora, levado por sua modéstia diga que, na verdade, foi Antônio Carlos quem o entrevistara. Os três encontros com o entrevistado somados a depoimentos de pessoas próximas desse herdeiro de José Bonifácio deram origem às 14 páginas que iniciam esse aclamado livro.

Igualmente bem escrito, e repleto de diálogos, é o penúltimo capítulo, Pode uma feijoada derrubar o governo? Pois foi o que aconteceu. Todos esses detalhes são apenas mais uma prova da incrível capacidade de memorizar informações que tinha o jornalista: Joel Silveira jamais usou gravador – ia às entrevistas munido de sua máquina de escrever, digitando o que julgava mais importante e confiando, principalmente, em sua memória para armazenar as informações relevantes. A feijoada em questão, muito saborosa de acordo com o autor, acompanhada dos mais variáveis drinks, servira apenas como pretexto para os grandes nomes da política brasileira compactuarem sobre o que os jornalistas já sabiam ser iminente: a tomada do poder pelos militares.

Joel Silveira, como fica claro em A Feijoada que Derrubou o Governo, era autor de críticas ácidas, a quem quer que fosse, e não abria mão de estar sempre frente aos grandes acontecimentos da história do Brasil, fazendo o que tinha indiscutível habilidade: escrever.

(resenha escrita em 03/11/11, para a disciplina de Jornalismo Literário II)

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