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O “Xou da Xuxa” comemorava sua milésima edição no dia 08 de setembro

Sexta feira, 08 de setembro de 1989, foi um dia de clima ameno. Os termômetros registravam temperaturas entre 15 e 27 graus Celsius. Céu nublado e brisa suave completavam o cenário. No dia seguinte ao tradicional desfile em homenagem à Pátria, logo cedo, crianças amontoavam-se frente à tela da televisão, a fim de conferir a milésima edição do programa Xou da Xuxa, comandado pela “Rainha dos Baixinhos”. Donas de casa começavam a preparar o almoço ao som da música mais tocada das rádios naquele ano, Entre Tapas e Beijos, da dupla sertaneja Leandro & Leonardo.

A disputa de sucessão do então presidente José Sarney era assunto na maioria das mesas de bar. Havia candidatos de 22 legendas diferentes naquela que seria a primeira eleição, desde 1960, em que os 85 milhões de cidadãos brasileiros aptos a votar escolheriam quem ocuparia o cargo máximo do Executivo. Lívia Maria, do Partido Nacional, entraria na história desse país por ser a primeira mulher que se candidatava ao posto mais elevado da República.

O salário mínimo aumentara, mas ainda era pequeno frente à inflação. Ainda assim, era grande o número de pessoas que economizava parte dos NCz$ 249,48 mensais e, a noite, ia ao cinema assistir Indiana Jones e a Última Cruzada,o  terceiro filme da saga dirigida por  Steven Spielberg.

Na TV Globo, sucessivas vinhetas anunciavam o programa Domingão do Faustão que, enfim, ultrapassava a audiência do Programa Silvio Santos, exibido pelo SBT.  Tão frequentes quanto os comerciais para a atração de Fausto Silva, eram os que anunciavam os últimos capítulos da “novela das 7” Que Rei sou Eu? – e o folhetim que o substituiria, Top Model.  A emissora de Roberto Marinho também promovia, ao longo do dia, o telejornal mais assistido do país, o Jornal Nacional, que completava 20 anos no ar.

Ocupavam os jornais notícias sobre o Boeing da Varig que, no último dia 03, caíra na floresta amazônica, matando 13 pessoas. Os investigadores tentavam descobrir o que ocorrera com o voo 254, que trazia seis tripulantes e 48 passageiros a bordo.

No Caderno de Economia o destaque era o fato de bancos brasileiros terem concordado com a “moratória branca” até o final do mandato Sarney, isto é, aceitado os pagamentos parciais dos US$ 2,3 bilhões de juros. A nível internacional, Alemanha no centro das notícias. A Guerra Fria motivava centenas de pessoas a cruzarem a fronteira imposta pelo Muro de Berlim, crentes de que do lado ocidental encontrariam melhores condições de vida.

Também na pacata cidade de Itu, mais precisamente na Maternidade Borges, o 251º dia do ano foi agitado. Impaciente, na sala de espera, um jovem senhor massageava as têmporas enquanto andava, silenciosamente, ao redor da sala de espera. Não conseguia disfarçar que era pai de primeira viagem, tampouco o quanto estava cansado. Bancário, não usufruíra um dia de trabalho mais light, devido ao feriado do dia anterior, como algumas outras categorias profissionais. Somava-se ainda a suas emoções enorme curiosidade… Quem estava a caminho era Maria Alexandrina ou Marcus Vinícius? Anna Magdalena ou Victor Hugo? Apenas o tempo diria, afinal, não se era possível decidir o nome sem saber o sexo daquele tão aguardado bebê.

Sua mulher, Maria Aparecida, carinhosamente conhecida na cidade como “Cidinha do piano”, a filha do “Cardoso do IBGE”, estava se preparando para o parto e lembrando-se de cada peça que comprara para o enxoval de seu primeiro filho ou filha. Já fora informada de que uma cesariana seria necessária, já que o pequeno ser que há quase nove meses habitava seu ventre parecia preguiçoso para virar-se e ficar na posição apropriada para o parto normal.

Um amigo brincalhão do casal diria que a criança seria “boa de garfo”, considerando que a hora do jantar não tardaria a chegar e o bebê já estava sentado, a espera apenas dos talheres. Aquela altura, Cidinha e Evangelista, mais conhecido apenas pelo sobrenome, sabiam apenas que o fruto máximo do amor deles estava com o peso normal. A mala para o hospital estava arrumada há dias, por sorte: o trabalho de parto estava previsto apenas para o dia 18 de setembro.

Bem que se Quis, de Marisa Monte, ecoava na rua, vindo provavelmente de algum toca-fitas. Nos finais de tarde, a rua Joaquim Borges costumava ter relativo trânsito, se considerando uma cidade pequena como o “Berço da República”, mas Pinheiro jamais imaginara que de dentro do hospital fosse possível ouvir toda a movimentação dos carros. Enquanto folheava uma revista, dava-se conta que a criança que tornaria a felicidade deles ainda mais completa nasceria no mesmo dia em que a Igreja Católica comemorava a Natividade de Nossa Senhora. “Que benção”, pensava. O editorial acrescentava que em 08 de setembro comemorava-se o Dia Internacional do Jornalismo. Será que seria pai de alguém com aptidão para a escrita?

As divagações e observações tinham de chegar ao fim, era hora de acompanhar sua amada ao centro obstétrico e enfim descobrir as feições e o sexo da pessoa que já aprendera a amar.

Às 18h35 em ponto, um forte choro irrompe na sala. No auge de seus 47 centímetros e pouco menos de três quilos, uma menininha vinha ao mundo, enchendo os olhos dos pais de emoção e transbordando carinho do obstetra, doutor Hélcio, amigo da família. Tão logo olharam para sua filhinha a primeira vez e observaram o jeito curioso da menina e o toque arrebitado de seu delicado nariz, não tiveram mais dúvidas. Entreolharam-se e, unânimes e em uníssono, exclamaram: “essa é nossa Anna Carolina”.

                               (texto escrito em 07/03/2012, para a disciplina de Jornalismo Literário III)

Comentários em: "Um dia nada comum" (1)

  1. cidinha disse:

    seu texto ‘mexeu’ com nossas emoções, sabia?

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